022. A burocracia da informalidade

July 18, 2006 | 21:48
Uma coisa que a gente sempre prezou no comércio informal é que tudo sempre foi muito simples, prático e rápido como cozinhar com uma George Foreman Grill -  que tem uma grelha dupla que prepara seus alimentos dos dois lados. No entanto desde que muita gente começou a limpar a bunda com o diploma que ganhou na faculdade porque fazia mais dinheiro vendendo DVD pirata do Calypso, as coisas vem mudando.

Fui vender meus Tickets Refeição e levei mais tempo do que se fosse retirar a aposentadoria da minha avózinha no INSS. Primeiro, parei numa barraca e um cara queria me descontar 20% alegando que ninguém conseguia repassar abaixo desse valor. Andei mais 8 passos e achei uma barraca que fazia por 15%.

Cheguei lá e um cara com a alcunha de Bola me disse: "vem comigo, que a moça ali vai comprar de você". Eu estava imaginando que a qualquer hora chegaríamos a um lugar com um vidro fumê com dois seguranças que tentariam me barrar, mas que cederiam no momento em que Bola diria "pode deixar, tá comigo". Não aconteceu nada disso e a gente chegou num boteco do outro lado da rua, onde uma tia tão, ou mais gorda que o tal Bola disse "liga no escritório e pede pro Lima trazer o dinheiro". Dali a poucos instantes ia poder pegar a grana e gastar tudo em chocolate. Doce ilusão.

Durante 15 longos minutos eu esperei pelo tal Lima com o meu dinheiro ao lado de uma barraca de DVD’s que continha alguns exemplares interessantes e raros como "Superman Returns", "Ah que isso, elas estão descontroladas!" e "Grelos sem Grilos". Do nada me aparece um senhor com os seus, vá lá, 63 anos e começa a estudar esses exemplares, olha uma ruivinha, uma japinha e se vira pro vendedor:


- Qual desses tem a história mais legal?

Sinto muito por não poder contar pra vocês qual foi a resposta do vendedor porque eu não ouvi. Dei uma risada tão alta que deve ter constrangido o velho, o vendedor e até a japinha da capa do DVD. Antes que eu pudesse ver qual foi o desfecho da consulta sobre os filmes, Bola retorna e me indaga:

- Você tem algo que comprove que trabalhe lá?
- Como assim? Um holerite? Extrato do FGTS? Quer que eu chame meu gerente aqui?
- Er…hum…é.
- Serve a carteirinha do plano de saúde?
- Serve.

Mais 5 minutos e grana me é entregue num envelope pardo.

Domingo, 20:00 assista a reportagem completa sobre o comércio ilegal no Fantástico.

"Quem me fornece é quem ganha mais
A clientela é vasta, eu sei"
O Rappa - A Feira

8 comentários »

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  1. Huahauhauahauhauahuah, a foto do tiozinho é a melhor ever!

    E você comprou o “Grelos sem grilos” com a grana do ticket?

    Comment by Júlio — July 18, 2006 @ 21:51

  2. O post tem um caráter dramático muito forte. O tiozinho me emocionou.

    Mas me fez lembrar de quando eu vendia minhas passagens q eu ganhava do vale-transporte aqui da empresa. Época boa aquela da contravenção.

    Comment by Tiago — July 18, 2006 @ 22:08

  3. Acho que Superman tem a história mais legal, mas o velho se divertiria mais morreria com Grelo sem grilo.

    Comment by Maurício — July 19, 2006 @ 02:50

  4. Qual era o preço do Grelos Sem Grilos?

    Comment by — July 19, 2006 @ 03:18

  5. Por isso que eu tenho medo das pessoas que me páram na rua, principalmente na porta do Terminal de Transporte Urbano, dizendo que compram e vendem passe escolar.
    E vai que uma dessas resolve me dar parte do pagamento com um exemplar exclusivo de Grelos sem Grilos? =S
    Bjo

    Comment by Daniela — July 19, 2006 @ 03:25

  6. Carai, mas pra quem você foi vender seus tíquetes? Pra máfia russa?

    Comment by Penin — July 19, 2006 @ 04:06

  7. É que o tíquete do Eric é de 35 reais cada - quem trabalha na TIM não passa vontade, minha gente. Ou almoça nos melhores lugares de São Paulo ou compra o Grelo sem Grilos com desconto.

    Comment by Gabi — July 19, 2006 @ 12:15

  8. Qual foi a resposta? E vc estava infiltrado?

    Comment by Bruno — July 19, 2006 @ 13:15

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